Sobre a culpa, para C. T.
Te escrevo pra dizer que minha dor não tem nada a ver com você.
Tem a ver com o altar em que te coloquei com a esperança de que me guiaste pelo caminho do amor. Nada pedi em troca.
Cedi, concedi, me machuquei.
Hoje são só feridas regadas á cinzas de cigarros.
Cada passo que dei foi seguindo tuas pegadas, não sei o caminho de volta, fui estúpido. Acreditar em contos de fadas e romances da TV, nos faz criarmos a pessoa perfeita e aguardamos fielmente a primeira atração, a primeira dedicação e o presenteamos com o figurino de nossos personagens. Ele não serve.
Rasgamos, remendamos, apertamos, soltamos. Nada fica em seu devido lugar.
Nos transformamos.
Hoje sou aquilo que você criou, cada movimento. Como um leão de circo adestrado á traumas.
Cheguei naquela encruzilhada em que você já passou. Estou sozinho, meu crânio dói.
A dor vem vindo em contrações, afrequência entre elas é cada vez maior. Isso me assusta.
Cravejado de feridas, sinto que não devia estar ali, mas meu coração ansioso por sei lá o que quer se decidir.
Então vamos.
Escolho seguir por ali, sentindo um alívio prévio e todas as malditas contrações.
Estancar esse sangramento, me livrar dessas entranhas, te dar paz. Baixar o tempo correr e sentir o vento criar uma casca grossa sobre toda essa carne vermelha escarlate.
Aqui tudo se purifica. De tempos em tempos vou expelindo a saudade, crua, doída.
Pronto, passou o frio, já escuto as boas novas. É tempo de renovação.
Se anular, nunca mais.

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